Praia do Nunca
Anoiteceu na Praia do Nunca
Lembranças me olham com olhos de peixes mortos
Idéias brutas me oferecem água de coco
O universo paira sobre o mar
E espera a brisa favorável carregar
Uma jangada-homem-centauro
Árvore de Sangue
A uma praia
Fui em pensamento
Para ver o mar,
Símbolo do esquecimento.
Uma onda se levanta,
E depois se contradiz.
Outras ondas se levantam
E morrem debaixo do meu nariz
Como se nada acontecera
E cada dia, cada minuto
Fora sempre algo novo.
Me surpreendo,
Porque sou feito de recordações;
Porque sou uma árvore de sangue.
Beijo na Alma
Um beijo salgado
Com gosto de mata
Com cheiro de mata
Calor de cachorro
Beijando com o corpo
A mão que o afaga
Pulmão de cavalo
Correndo pro rio
Que vai dar na praia
Tomara que caia
Toda a barreira
Eu mato sua sede
E você bebe minha cheia
A paixão floresceu
Já morta de calma
O amor sublimou
Para um beijo na alma
Quando a Morte me alcançar
Quando a Morte me alcançar
Não vai me encontrar só
A esta altura já estarei nas alturas
Voando como um anjo saboroso
No imenso mar do céu
A auréola - jarro de barro
O canto - língua de fogo
A bata - amor, ouro e prata
Olhos verdes ventando
Cabelos azuis como água
A trombeta vai soar
E vou correr, correr, correr
Até descascar no ar
E aí como fruta luminosa
Vou deixar mundos prá trás
Aí então nem anjo eu vou ser mais
Três Marias
O Universo tem três pontas;
Ele é obra de esquadros
De geometria inusitada.
A Santa Família é Trina;
Soma-se um - a sua sina -
E quatro é um no andar de cima
Ai, como é rebuscado o autor
Da obra celestial
Que pôs nas Três Marias alinhamento,
Que pôs o Cruzeiro do Sul na direção,
Que pôs no grão vindo da terra o Pão de Deus,
Que pôs em Jesus a nossa redenção.
Poema Verde
É estonteante pensar que sou apenas uma idéia
(De repente, me julgo senhor de tempo e matéria,
E resolvo pular da Vista Chinesa.
O ar sob meus pés se adensa e vou galgando, degrau por degrau,
Subindo em direção ao nada.)
A vida é para os descrentes,
Viva a plena morte na mente!
A Chave
Tem um facho alongado de luz no quarto escuro,
E ela está dividindo o meu corpo ao meio.
Finalmente, descubro o meu maior medo:
Que o meu coração só bata duas ou três vezes na vida,
E que eu me julgue vivo por ouvir o seu eco.
Migrante
Quando eu vinha para o Rio,
Nas estradas lá do Norte,
Uma cigana leu minha sorte
Nos cabelos do umbigo.
Ela disse: "Não te enganes,
Vais lá só prá pagar mico;
Vais levar vida maldita
Tal qual se leva só no circo."
Desde então venho vivendo
Esta estranha profecia
Pois a luz que me alumia
Se apendura numa lona;
Moro no meio da zona,
Todos riem da minha cara
Como se eu fosse palhaço
Ou então criatura rara.
Desde então não tem passado
Por debaixo da minha vista
Coisa bela ou coisa minha
Como se mago ilusionista
Soubesse dos meus amores
E os mandasse pro beleléu.
Me equilibro nesta vida
No fino fio do cordel.